Quando entra no transe da canção, ela canta com a alma a fazer vibrar as cordas; e todo o corpo é uma caixa de ressonância, propaga-se aquilo pelo espaço… e nós vibramos com ela – por ressonância, somos tocados. Em palco, é um pouco tímida, simples e quase frágil. E essa fragilidade deixa-a brilhar, pois tudo aquilo é seu, límpido e honesto.
Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, mas foi sempre maturando a música. Durante anos manteve a actividade dupla, e só recentemente o caminho de cantora se desenhou à sua frente com toda a nitidez, e aí decidiu dedicar-se-lhe totalmente. Estava só à espera do momento certo, da editora certa, das condições certas, do aperfeiçoamento das canções. O fruto maduro desprende-se agora com suavidade e doçura. E nós colhemos, gratos.
No meio da arte, muitos ficam surpresos ao ouvir-lhe a música (“então mas tu afinal agora fazes música?”). No meio da música surpreendem-se também (“mas tu afinal estudaste pintura, e não música?!”). Mal sabiam uns e outros que era necessário percorrer aquele caminho para chegar aqui. Os que acompanharam a gestação da cantora impacientavam-se por vezes e tentavam incentivá−la para gravar, ir falar com editoras, “vender o seu peixe”, porque – diziam- ela era muito boa. Mas o momento não era ainda o certo. Era preciso sair do país, ter saudades, eram precisos ainda alguns amores e desamores, era preciso ganhar a mestria da guitarra, a confiança de estar sozinha em palco, a coragem da simplicidade… trabalhar com fé e paciência. A história deste disco, que se prepara há anos, é uma lição de paciência, da arte de saber esperar o momento.
Raquel Feliciano